Musical 'Anunciação' cria um universo mágico ao traduzir em cena o estado de poesia das andanças de Alceu Valença

  • 13/08/2026
(Foto: Reprodução)
Natascha Falcão (à esquerda), Maria Pérola (ao centro) e Luiza Loroza personificam 'La belle de jour' em 'Anunciação - O musical de Alceu Valença' Anny Duarte & Eddy / Divulgação ♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO Título: Anunciação – O musical de Alceu Valença Idealização e direção geral: Miguel Colker Dramaturgia: Luiza Loroza e Duda Rios Direção artística: Duda Maia Direção musical: Ricco Viana Elenco: Beto Lemos, Duda Rios, Jef Lyrio, Juzé, Luiza Loroza, Maria Pérola, Natascha Falcão e Rafael Lorga Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ Espetáculo em cartaz no Rio de Janeiro (RJ), onde ocupa o palco do Teatro Carlos Gomes em temporada que será encerrada com a sessão extra de segunda-feira, 17 de agosto, “Anunciação – O musical de Alceu Valença” surpreende positivamente ao se desviar da fórmula dos musicais biográficos com dramaturgia original criada a partir do cancioneiro do compositor pernambucano. Ao encadear textos e cerca de 35 músicas em roteiro aberto com “Papagaio do futuro” (1972) e encerrado com “Estação da luz”, poetizando as andanças de Alceu ao longo dos 80 anos de vida, o musical concebe e ilumina um universo mágico que move narrativa que demora alguns minutos para engrenar, mas que, depois, envolve o espectador em teia da qual ele não quer mais se desprender. Livre da obrigação de traçar o percurso cronológico da vida e obra do cantador nascido em 1º de julho de 1946 em São Bento do Una (PE), no agreste de Pernambuco, o roteiro geográfico de “Anunciação – O musical de Alceu Valença” embaralha Recife (PE), Olinda (PE) e Rio de Janeiro (RJ) sem delimitar tempo e espaço na narrativa de tom onírico, potencializado pelo caráter já naturalmente imagético das letras do compositor. Dentro desse universo delirante, o diálogo amoroso entre Recife (PE) e Olinda (PE) – cidades personificadas como um casal nas peles dos atores Duda Rios e Natascha Falcão – sobressai como um dos grandes momentos da cena em que os oito atores se movimentam em conjunto, com expressiva linguagem corporal, enquanto portam e tocam os instrumentos dos quais extraem os sons que evocam o universo musical de Alceu, situado entre a aridez do sertão, o solo rural dos maracatus, a aspereza dos cantadores, a energia universal do rock e a folia dos Carnavais de Pernambuco. Singular, a direção musical de Ricco Viana se harmoniza com os arranjos vocais de Beto Lemos sem fazer concessão ao público. Em bom português: o musical sobre Alceu Valença está longe daquele tipo de espetáculo que provoca o canto da plateia como se o palco fosse um karaokê. É teatro, com a alta qualidade que a diretora artística Duda Maia já havia mostrado em “Elza” (2018), musical sobre Elza Soares (1930 – 2022) que remexeu na já exaurida receita dos espetáculos biográficos. Jef Lyrio (à esquerda), Beto Lemos (ao centro) e Rafael Lorga em cena que ilustra a excelência do movimento dos atores no elenco do espetáculo Anny Duarte & Eddy / Divulgação O fato de a narrativa de “Anunciação – O musical de Alceu Valença” estar ancorada na força do coletivo – com músicas interpretadas por todos os atores, caso do coco de embolada “Coração bobo” (1980) e de “Eu vou fazer você voar” (2019)), música cantada a capella pelo elenco homogêneo – jamais anula o brilho individual de cada artista, mas sempre na linha um por todos, todos por um, como uma trupe circense porque Alceu, bicho maluco beleza, também é do circo. Uma das presenças luminosas em cena na qual todos tem o momento de protagonismo, Natascha Falcão se equilibra pendurada em triângulo, elevada em cena, enquanto canta “Espelho cristalino” (1977). Jef Lyrio sorve a sede do desejo de “Molhado de suor” (1974) e ancora o canto doído de “Porto da Saudade” (1980). Beto Lemos doma “Cavalo de pau” (1982) – número entranhado no solo árido que embasa a música de Alceu Valença – e, momentos depois, segue o fluxo de “Caravana” (Alceu Valença e Geraldo Azevedo, 1975) em duo com Juzé, solista de “Cabelo no pente”. Estruturada em cenas temáticas que formam um todo harmonioso, a dramaturgia de “Anunciação – O musical de Alceu Valença” – assinada por Luiza Loroza e Duda Rios – derrama poesia no texto em que Duda Rios discorre sobre a rota do azul até chegar aos olhos de “La belle de jour”, musa da canção de 1991 ouvida em cena nas vozes de Luiza Loroza, Maria Pérola, Natascha Falcão. Quatro números antes, Pérola fizera “Chuva de cajus” (1985) cair a capella em cena que jamais perde o viço e a poesia depois que engrena. Músicas ouvidas nas vozes de Rafael Lorga e Duda Rios, respectivamente, “Andar andar” (1990) e “Pelas ruas que andei” (Alceu Valença e Vicente Barreto, 1982) sinalizam que, tanto na obra de Alceu como na cena de “Anunciação”, tudo é caminho, tudo é estrada que conduz a um desejo e/ou sonho. Idealizado por Miguel Colker, o musical “Anunciação” se revela um grande acerto justamente por traduzir esse estado de poesia em cena, derramando azuis na dramaturgia orgânica que conduz o espectador até a Estação da luz em viagem aliciante. Natascha Falcão se equilibra no triângulo ao cantar 'Espelho cristalino' em número do musical que traz Juzé na guitarra Anny Duarte & Eddy / Divulgação

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/08/13/musical-anunciacao-cria-um-universo-magico-ao-traduzir-em-cena-o-estado-de-poesia-das-andancas-de-alceu-valenca.ghtml


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