Teresa Cristina firma a assinatura como compositora em 'Tudo que eu tenho', show de roteiro inteiramente autoral

  • 24/09/2026
(Foto: Reprodução)
Teresa Cristina apresenta o show 'Tudo que eu tenho' no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro (RJ), após estrear a turnê em Salvador (BA) Reprodução / Instagram Teatro Riachuelo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Tudo que eu tenho Artista: Teresa Cristina Data e local: 23 de setembro de 2026 Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Na cronologia do samba, o show apresentado por Teresa Cristina no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de ontem, 23 de setembro, pode ser caracterizado como ato político pelo roteiro inteiramente autoral. Se analisado sob prisma pessoal, o show “Tudo que eu tenho” é a concretização de sonho de cantora que ora tem a chance de lançar um álbum também inteiramente autoral que serviu de mote para o show – após ter gravado, por contingências do mercado fonográfico, série de songbooks com os repertórios de bambas do samba como Cartola (1908 – 1980), Noel Rosa (1910 – 1937) e, mais recentemente, Zeca Pagodinho. Contudo, sob perspectiva histórica, o show “Tudo que eu tenho” ganha dimensão política por apresentar uma mulher cantando as próprias músicas, seguindo por alas abertas pela pioneira Dona Ivone Lara (1922 – 2018) – grande melodista que enfrentou resistências para se impor como compositora no meio machista do samba e somente se fez ouvir após os 50 anos, quando já tinha cumprido os ritos sociais impostos às mulheres da época de Ivone – e abrindo ela própria, Teresa, caminhos trilhados nas rodas por sucessoras como Marina Iris. Em sintonia com esse posicionamento político, a cantora e compositora montou uma big banda com oito instrumentistas em que quatro são mulheres – Jessica Nepomuceno (bateria), Jessica Zarpey (percussão), Paula Pardón (baixo) e Samara Líbano (violão) – e uma delas, Samara, orquestrou a direção musical do show. Essa formação mista, com equivalência de gêneros, deveria ser regra, mas ainda é exceção em shows produzidos no Brasil. E o fato é que, ao seguir o roteiro inteiramente autoral do show “Tudo que eu tenho”, Teresa Cristina firmou a assinatura autoral. Estreado em Salvador (BA) no último sábado, 19 de setembro, o show desembarcou na cidade natal da artista carioca com poder de sedução para atrair os seguidores de Teresa. Se musicalmente é irretocável, o show “Tudo que eu tenho” ainda precisa de um ajuste cênico para diluir certa linearidade. A cantora se movimenta pouco no palco em comparação com espetáculos anteriores como “Melhor assim” (2009) e “Teresinha – As canções que Bethânia me ensinou ” (2023). Com 23 músicas no roteiro autoral e a licença poética de sair do palco com os músicos ao som do samba de despedida “Do fundo do nosso quintal” (Jorge Aragão e Alberto Souza, 1987), o show tem todas as 10 composições do já mencionado primeiro álbum inteiramente autoral de Teresa Cristina, “Tudo que eu tenho” (2026), lançado em 14 de agosto, e abarca outras músicas autorais apresentadas pela artista ao longo da discografia iniciada em 2002. Quando Teresa reacendeu “Candeeiro” (2002), samba que já fazia sucesso nas rodas antes de ganhar o primeiro registro fonográfico no álbum coletivo “O samba é minha nobreza” (2002), em gravação feita pela cantora com o percussionista Marcos Esculeba, ficou evidente que a compositora já merecia créditos autorais desde o início da carreira. “Candeeiro” faz parte da primeira leve de sambas de autoria de Teresa – compostos no fim dos anos 1990, antes de a cantora ganhar projeção nacional – ao lado de “Acalanto” (2004) e “Pedro e Tereza” (2004), sambas gravados originalmente no segundo álbum da artista, “A vida me fez assim” (2004), disco no qual Teresa também registrou “A borboleta e o passarinho” (2004) e o samba-exaltação “Portela” (2004), este feito em parceria com Pedro Miranda, além da música-título “A vida me fez assim”, parceria de Teresa com o bamba portelense Argemiro Patrocínio (1923 – 2003), com quem também compôs “Amém” (2002). Teresa Cristina canta parcerias com Argemiro Patrocínio (1923 – 2003), Arlindo Cruz (1958 – 2025), Marisa Monte, Moacyr Luz e Roque Ferreira no show 'Tudo que eu tenho' Rodrigo Goffredo Toda essa safra antiga se harmonizou no show com os sambas do álbum “Tudo que eu tenho”. Sem reinventar o samba, a compositora se criou dentro dos padrões do gênero, com referências do samba dos bambas da Velha Guarda carioca, do samba rural – tempero sentido tanto no antigo “Pedro e Tereza” quanto no recente “Nostalgia” (2024) – e do molejo do samba de roda da Bahia, evocado em “Cordão de ouro” (2005). parceria da artista com Roque Ferreira. Tudo isso veio embalado no show com mix de melancolia – muitas vezes já entranhada no canto da artista – e leveza, como a que conduz a melodia de “Taturana” (2026), samba que parece solto no ar. Há leveza, para citar outro exemplo, em “Pode acontecer” (2026), samba de Teresa com Marisa Monte que evoluiu macio no show por um imaginário salão de gafieira no sopro do saxofonista e flautista Alexandre Caldi. A música de Teresa Cristina também tem alta carga de espiritualidade afro-brasileira, acentuada no bloco final do show em que a artista reuniu sambas compostos em saudação aos orixás. “Canto para Ogum” (samba apresentado por Teresa nas já lendárias lives promovidas pela artista em 2020 no auge da pandemia de covid-19, mas somente gravado neste ano de 2026 no álbum “Tudo que eu tenho”), “Oferendas” (Arlindo Cruz e Teresa Cristina, 2011), o ainda inédito “Oxum” (2026) e o recente samba batuqueiro “Bato pa ó” (Teresa Cristina, Mingo Silva e Bruno Barreto, 2026) integraram esse bloco final. Enfim, Teresa Cristina não mostrou tudo o que tem como compositora no show, pois tem outras músicas autorais além das 23 do roteiro. Mas o que mostrou foi suficiente para que seja reconhecida tanto como cantora quanto como boa compositora de traços altivos e delicados. Parafraseando verso lapidar de “Cantar” (2007), um dos melhores sambas de Teresa Cristina, cantar e compor é vestir-se com a voz e a inspiração que se tem. Teresa Cristina alinha 23 músicas autorais no roteiro do show 'Tudo que eu tenho' Rodrigo Goffredo ♪ Eis as 23 músicas do roteiro inteiramente autoral seguido por Teresa Cristina em 23 de setembro de 2026 na estreia carioca do show da turnê “Tudo que eu tenho”, no Teatro Riachuelo, na cidade do Rio de Janeiro (RJ): 1. “Notícia boa” (Teresa Cristina e Cézar Mendes, 2026) 2. “Tudo que eu tenho” (2026) 3. “Nostalgia” (2026) 4. “Pedro e Tereza” (2004) 5. “Yabá” (Teresa Cristina e Moacyr Luz, 2026) 6. “Pode acontercer” (Teresa Cristina e Marisa Monte, 2026) 7. “Quando a onda passar” (Teresa Cristina, Mosquito e Xande de Pilares, 2026) 8. “Cantar” (2007) 9. “Candeeiro” (2002) 10. “A borboleta e o passarinho” (2004) / 11. “Poesia” (2010) 12. “Taturana” (2026) 13. “Convite à tristeza” (2009) 14. “Portela” (Teresa Cristina e Pedro Miranda, 2004) 15. “Amém” (Teresa Cristina e Argemiro Patrocinio, 2002) 16. “A vida me fez assim” (Teresa Cristina e Argemiro Patrocínio, 2004) 17. “Canto para Ogum” (2026) 18. “Bato pa ó” (Teresa Cristina, Mingo Silva e Bruno Barreto, 2026) 19. “Oxum” (2026) 20. “Oferendas” (Teresa Cristina e Arlindo Cruz, 2011) 21. “Cordão de ouro” (Teresa Cristina e Roque Ferreira, 2005) 22. “Meu bloco” (Teresa Cristina e Raul Di Caprio, 2026) Bis: 23. “Acalanto” (2004) ♫ “Do fundo do nosso quintal” (Jorge Aragão e Alberto Souza, 1987) – saindo do palco com os músicos Teresa Cristina divide o palco do Teatro Riachuelo com 'big' banda formada por oito instrumentistas, incluindo quatro mulheres Bruna Latini / Divulgação Produção Teresa Cristina

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/09/24/teresa-cristina-firma-a-assinatura-como-compositora-em-tudo-que-eu-tenho-show-de-roteiro-inteiramente-autoral.ghtml


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